O livro que é além do aparente

Resenha do livro “O Artilheiro”, de Gustavo Araújo – 168 pg.O_Artilheiro
Uma vida insuspeita e rotineira de um menino comum, em um bairro de subúrbio da cidade do RJ.  Deixaria de ser comum pela ambientação histórica, nos idos de 1964, um período conturbado da Ditadura. Não é difícil de achar romances que relacionam esse período, principalmente com temática política. Fato que não interessa a quem quer se manter apolítico a versões de cada lado desse jogo de política.
A esta versão é mais humana e realista nos entremeios das pessoas que viveram dentro desse período, mostrando seus anseios, hábitos, relações humanas, como uma vida normal de subúrbio de uma cidade grande como o Rio. Mostra o impacto do governo da ditadura militar, nas relações familiares e intersociais de uma comunidade carioca, principalmente sobre as crianças, que em nada poderiam ser afetadas por algo criado pelos adultos. O dever pelo trabalho, arraigado dos adultos influenciam a afetividade que as crianças carecem, além do impacto psicológico avassalador sobre outras.
Dramas e conflitos interpessoais que aconteceriam em qualquer lugar e época. Mas devidos a certos elementos humanos em conjunto ao período político tenso, mostra-se uma constante flutuação da aparente normalidade da vida inocente de um menino sobre algo que está a um passo de ruir.
A narrativa é feita sob a ótica de um menino de 9 anos, Marco Aurélio, vulgo Lelo, com suas preocupações e interesses típicas desta idade (figurinhas de futebol, revistas em quadrinhos, embaixadinhas, etc.). E sob essa perspectiva de criança, inocente e perceptiva, ele encara os problemas de adultos como algo incoerente para sua própria lógica infantil. Ele não compreende, por exemplo, como certos pais podem dedicar mais tempo que o seu próprio, que é um militar.
O interessante é mostrar a realidade de um menino, com sua rotina que girava basicamente na família, seus costumes suburbanos e simples, laureados pela paixão de todo menino brasileiro, que era o futebol. Não era descrita de forma fanática e agressiva, como estampamos em nossas mentes quando ouvimos falar de torcedores de futebol. É uma paixão que movia hábitos, convivência e social dentro da normalidade, que tornavam um todo em uma felicidade coletiva.
Há momentos que acho magia pura dentro das relações interpessoais. Um jogo de futebol, onde 3 gerações da mesma família compartilham o momento somente para eles, como se os problemas de cada um ficassem de fora do estádio. Todos unidos pela paixão pelo futebol faz-os um grupo único em que se esquecia todas as diferenças que assolam suas vidas rotineiras. O futebol era o mundo que tanto meninos e homens podiam viver despreocupados e felizes, em uma alegria unida.
O personagem Lelo, além de se preocupar em ser uma criança normal, convive sozinho uma situação que caminha para o desequilíbrio da normalidade de sua vida.
A partir do momento que a trama secundária se revela, a história se inflama de tal modo que, sob alguns fatos, leva a querer à conclusão de uma aparente obviedade. Mas o surgimento de certos elementos ocasionam uma finalização completamente diferente, em uma reviravolta surpreendente, dando um sabor de finesse, digna de um grande final.
Particularmente seria um livro que não leria em uma escolha rotineira. Devido ao título e a capa, meu preconceito falaria mais alto. O que é um erro pois NUNCA, JAMAIS, deveríamos MESMO julgar um bom livro pela capa. E diria mais, muito menos pelo título também.
Fui surpreendida pela escrita elaborada e cuidadosa, ambientação adequada, além da exposição dos dramas pessoais em sincronia ao período histórico brasileiro. E mais do que satisfeita pelo resultado que o livro, como um todo, ocasionou a mudança de opinião sobre este tipo de literatura que, em termos pré-concebidos, seria destinada “para homens”.
Fiquei feliz em ter derrubado esse preconceito pessoal e não o julgo como literatura “masculina”.
É literatura para os leitores que apreciam uma excelente história humana e brasileira.

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