Sobre adaptações de Clássicos da Literatura Brasileira em Quadrinhos

JpegEm tempos contemporâneos, adaptar textos clássicos para as novas gerações é um desafio que exige não só de educadores, preocupados no estímulo de leitura para novos leitores. Preocupa-se em se adaptar um texto que retratava uma época diferente da nossa, tantos em usos e costumes, assim como de estruturação de escrita e de história. Houve até sugestões de “facilitar” os textos clássicos, adaptando-os à linguagem atual, para atrair novos leitores de nossa literatura. Mas não se pode esquecer que existem outros meios para que se mantenha a originalidade de um texto que causa mais ojeriza juvenil do que necessariamente a atenção que os clássicos mereçam.
Pensando nisso, um dos recursos válidos para tal adaptabilidade à novas gerações é o uso da linguagem visual das Histórias em Quadrinhos. É um recurso muito váluido pois lida com um facilitador de interesse, atrelado a um conteúdo pra lá de agregador de carga cultural. Explica-se que o uso de Histórias em Quadrinhos é motivado pelo fato de que as pessoas se valem primeiros no visual e depois na leitura das palavras. De certo modo, ver imagens de histórias é um modo de leitura, de compreensão de uma mensagem, validando o incentivo à leitura, no caso visual.
A adaptabilidade de textos clássicos é um trabalho que não pode ser tratado levianamente ou feito por aqueles que não tenham noção ou o respeito profissional em se fazer um trabalho que respeite a originalidade da obra clássica. Quem adapta tem de se preocupar com uma série de fatores, que vão desde fazer a separação precisa dentro do enredo a narrativa pertencente ao narrador, personagens, além de se preocupar em como repassar para o ilustrador sem distorcer a descrição de cena e personagens, além da ambientação de época com seus detalhismos históricos.
O trabalho do ilustrador/quadrinhista faz parte desse trabalho de adaptabilidade também. Obrigatoriamente tem de ter uma pesquisa dos usos e costumes da época em que foi escrito a obra, além de fazer a adequação a um estilo de traço e cores que for condizente e interessante visualmete. Poucos ilustradores e quadrinhistas se enveredam nesse campo, que exige uma boa dose de pesquisa e sobretudo, a responsabilidade de se fazer um trabalho visual que atraia novos leitores para nossa literatura tão abandonada pelas novas gerações.
Apesar da boa ideia, a perspectiva em se perpetuar o trabalho de adaptabilidade dos Clássicos é um tanto desanimadora. Por parte das editoras que fizeram tais publicações, além de não se preocuparem em fazer uma divulgação publicitária mais maciça, existe a situação em se paga pouco ou não pagamento dos profissionais envolvidos, deixando-os com um imbróglio judicial de cobrança e também com as vendas pessoais do que recebem na forma de exemplares cedidos, quase beirando a medicância digital que desestimula o trabalho todo feito. Portanto, a literatura brasileira é tratada como um material cultural barato por editoras caça-níqueis e sem a devida seriedade mercadológica que poderia alcançar mais leitores interessados se não fosse essa rapinagem de direitos autorais vencidos que a literatura vive.

Para exemplificar o trabalho dos roteiristas que trabalham com essa modalidade de História em Quadrinhos, segue uma breve entrevista com um dos profissionais, desbravador do mercado brasileiro, Jo Fevereiro, roteirista de diversas revistas, em sua grande maioria de Clássicos da Literatura Brasileira:
Blog: Qual a dificuldade principal em se fazer uma adaptação de um clássico da literatura, para uma história em quadrinhos?
Jo: Quando a editora Escala Educacional me incumbiu de adaptar um conto do Lima Barreto, veio imediatamente a lembrança de “O homem que sabia javanês”, que li no começo da minha adolescência e ficou indelével na minha memória. Capturei o texto original no Google, e decidi colocá-lo na íntegra, alterando apenas o uso de legendas dispensáveis como: – “disse ele”, que é substituído pelo rabicho no balão das falas, e que faz parte da estética narratória dos quadrinhos. A editora aceitou a proposta, e as quatro adaptações que fiz, foram publicadas com os textos originais.

Blog:Em uma adaptação, quem orienta o ilustrador para dúvidas que surgir? Do tipo, se foi adequada a caracterização de época, etc.
Jo: Os autores que adaptei, foram: Machado de Assis, Lima Barreto, e Antonio de Alcântara Machado. Como havia uma diferença de época entre eles, tive de pesquisar cenários e vestimentas que, felizmente, encontrei na coleção “História do Século XX” editada pela Abril, e que eu tenho completa.

Blog: A pesquisa quanto a vestimentas e ambientação de época fica no encargo de um profissional apenas ou é um trabalho em realizado em conjunto?
Jo: Os editores deixaram comigo a responsabilidade pela escolha de referências, e aceitaram com elogios o resultado visual e narrativo dos contos adaptados por mim.

Blog: Interessante saber que você fez a adaptação de outros autores. Inclusive, em base disso, te pergunto qual desses autores você achou mais desafiador de se trabalhar?
Jo: Me senti à vontade com os três, mas o que mais instigou a última adaptação que fiz, foi o Antonio de Alcântara Machado, com três contos em uma mesma revista, tirados do livro “Brás, Bexiga e Barra-Funda”. Eram contos mais curtos, mas com enredos mais atuais em relação a Machado de Assis e Lima Barreto, e com temática paulistana, que se distanciam do ambiente carioca descrito tanto por Machado, quanto por Lima.

Para conhece mais sobre o autor entrevistado, Jo Fevereiro, visite sua página no Facebook.

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2 thoughts on “Sobre adaptações de Clássicos da Literatura Brasileira em Quadrinhos

  1. Muito bom o seu texto inicial, Marcia Harumi. Ainda não enviei as revistas prometidas, porque tive de resolver uma série de problemas familiares e não consegui encontrar a do Brás, Bexiga e Barra-Funda.

    • Olá.
      Não tem problema, Jo. Mande na medida do possível. Fique tranquilo.
      E agradeço também pela colaboração pois foi importante o seu depoimento a respeito.
      Abracos

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